Amor Cortês

 


 

Texto 1

Fonte: http://www.galeon.com/projetochronos/chronosmedieval/tristao/tri_menu.htm

  

        O  amor cortês trata da relação entre um homem e uma mulher: onde a mulher é uma dama, que também significa que ela é casada e, o homem é um celibatário, que se interessa por ela.

        Tudo começa por um olhar lançado, “é uma flecha que penetra pelos olhos, e crava-se no coração, incendeio-o, traz-lhe o fogo do desejo”. Este homem, então, ferido de amor (no sentido carnal), sonha apoderar-se desta mulher. Essa mulher é muitas vezes esposa de seu próprio senhor, portanto é dona da casa que este freqüenta, ou seja, ela está hierarquicamente acima dele, é seu vassalo. Por ela, deixa de ser livre.

        O amor cortês é um jogo, cujo mestre é o homem. A dama é uma peça fundamental, porém é mulher e não dispõe livremente do seu corpo, que pertenceu, primeiramente a seu pai, agora é de seu esposo. Carrega nele a honra deste esposo, Por esse motivo ela é altamente vigiada.

        Sem privacidade nos castelos, ao menor deslize, esta mulher é acusada, por ser frágil e fraca. É passível dos piores castigos, os quais seu cúmplice corre o risco de recebe-los.

        Neste jogo, o mais excitante eram os perigos, o amor cortês era uma aventura, permeado por códigos secretos, discrição, olhares furtivos e pela ânsia de estarem junto com esta dama “num jardim secreto”.

        Os homens esperam pelos favores que essas damas  podem lhe conceder, e tais favores eram concedidos em etapas: primeiro um abraço, depois ela deixava beijar-se... A espera, que é muito descrita pelos trovadores era uma prova decisiva para se chegar a proximidade carnal. Mas estes homens continham seus ímpetos, pois deveriam manter o controle sobre seu corpo, fazendo com que esta situação se arrastasse indefinidamente. Então, o homem deseja a espera, o seu prazer atinge o clímax neste desejo, tornando o amor cortês onírico, ou seja, um sonho.

        O amor cortês, serviu então, para consolidação da ordem moral, que se fundava em duas virtudes: moderação e amizade.

O cavaleiro deveria dominar-se, controlar suas paixões, principalmente as que tinham apelo carnal. Com este tipo de procedimento, reprimia-se o rapto de donzelas, substituindo tal ato pelo cortejamento, os homens utilizariam-se do ritual “honesto” para conquistar as mulheres.

        A amizade, vinha logo a seguir, porém o seu significado difere do atual. Nesta época “amizade” fazia contraponto com a palavra amor, onde os cavaleiros e vice-versa nomeavam seus alvos como “amigo”.

        Os cavaleiros, decididos a servir esta “amiga”, esqueciam de si próprios, eram fiéis, abnegados ao seu serviço,, em síntese, tornavam-se seus vassalos.

        Nesse sentido, os cavaleiros vinham a reforçar a ética vassálica, que nesta época era o alicerce da política, consolidando assim, o Estado Feudal.

        O exercício deste amor cortês, vinha evidenciar, realçar os valores viris dos cavaleiros. Fazendo com que estes se redobrassem em coragem, e esta coragem era posta à prova nos vários torneios a que participavam. A prática do amor cortês, tornou-se útil, e logo difundiu-se. Construído para agradar   cavaleiros sem esposas, o modelo punha face a face, na sua forma mais antiga, um homem celibatário e uma mulher casada.

        Mas, pelo efeito que a literatura de corte, a da refração de seus temas sobre os comportamento, logo foram abertos espaços à donzelas e aos maridos.

        Então, ao final do século XII, na França Capetíngia, os ritos de cortesia transformaram-se prelúdios ao casamento

 


 

Texto 2

Fonte: http://www.milenio.com.br/ingo/ideias/hist/cortes.htm

 

        INTRODUÇÃO

        O século XII foi uma época de grandes transformações. Tanto que muitos historiadores a consideram um Renascimento Medieval. A cultura medieval não foi excessão: também sofreu transformações significativas.

        No campo literário, as narrativas passaram do latim - compreendido apenas por uma pequena parcela da sociedade (eclesiásticos e alguns nobres) - para uma linguagem vulgar, popularizando-as. Escritas em forma de versos, essas narrativas eram cantadas ou contadas por trovadores e passaram a ter grande aceitação.

        Dentre essas narrativas destaca-se a literatura cortês e é nela que encontra-se o "amor cortês" representado neste relatório pelo "Romance de Tristão e Isolda" de Joseph Bédier. No desenvolvimento foram descritas, brevemente, as características desses romances e suas relações com a sociedade da época.

 

        CARACTERIZAÇÃO

        O amor cortês pode ser resumido como a relação entre um homem e uma mulher em que ela é uma dama casada e ele um jovem(1) puro que acaba se interessando por ela. Mas, devido à mulher ter um esposo, a união torna-se impossível e o jovem acaba enfrentando vários perigos em nome da sua amada.

        No "Romance de  Tristão e Isolda" por exemplo, a dama (Isolda) é casada com o senhor (Rei Marc) do jovem (Tristão), portanto, é um amor socialmente impossível, inatingível.

        Por ser casada com o senhor, a dama localiza-se hierarquicamente mais acima do jovem e, além disso ele freqüenta seu castelo, o que o torna totalmente submisso a ela à qual também jura fidelidade.

        Os vários perigos enfrentados pelo jovem durante o romance servem exatamente para mostrar sua coragem e bravura, além de outras qualidades, em nome do seu amor, que é considerada a mais bela de todas as mulheres.

        Essas situações de perigo podem ser desafios contra outros cavaleiros ou monstros, armadilhas e complôs. No "Romance de Tristão e Isolda" destacam-se as intrigas feitas pelos barões do Rei Marc: Guenelon, Gondoine, Denoalen e Andret. Por inveja à preferência do Rei Marc por Tristão, esses barões resolvem denunciar o romance proibido. A princípio essa denúncia pode parecer um ato de fidelidade dos barões para com o rei, mas é impossível negar a existência da inveja como condutor principal das ações deles contra Tristão.

        Outra característica comum do amor cortês é a presença de confidentes (Brangien em Tristão e Isolda) que são personagens cientes do amor entre o jovem e a dama e que ajuda-os durante a história tentando realizar a união.

        Esquematicamente, o romance obedece à uma seqüência de acontecimentos:

SOFRIMENTO   =>   OBSTÁCULOS   =>   MORTE

        O sofrimento vem do amor irrealizável, pois é um amor proibido. Uma mulher casada jamais poderia ser infiel ao seu esposo, ainda mais o amante sendo um jovem.

        Os obstáculos surgem como um meio do jovem provar a coragem e bravura sujeitando-se a tudo para realizar os desejos de sua dama, portanto, além da coragem e bravura, serve como uma prova de amor e fidelidade.

        A morte de ambos fecha a seqüência pois neste mundo a realização desse amor é impossível. Somente com a morte eles poderão estar juntos e para sempre.

        Certamente, nessas histórias, um dos aspectos mais importantes é a dificuldade e os perigos enfrentados pelo jovem. São partes fundamentais do romance pois têm um alto grau de tensão, o que mostra que o amor cortês era uma verdadeira aventura.

        Apesar dessa luta para conseguir ficar junto da sua dama, o jovem deseja essa espera pois é através dela que o homem tem controle sobre si, aproximando-se da mulher apenas nos momentos certos, que são raros.

        Não se pode encarar esses romances como retrato fiel da realidade, mas pode-se dizer, sim, que mostram o comportamento ideal que deveria ser seguido pelos homens. Era uma história feita para os homens onde a mulher aparece apenas para reforçar os atos dele.

        A mulher não tem o papel principal. É o homem o agente da história. Ele quem desdobra-se por sua dama que, assim, serve apenas para valorizar suas ações heróicas e suas virtudes. É um jogo onde o prêmio é a mulher e é ganho por quem melhor serví-la.

 

O AMOR CORTÊS E A SOCIEDADE

        Como foi dito há pouco, o comportamento do homem no amor cortês não é o retrato fiel da realidade, mas sim de como ele deveria comportar-se.

Numa época em que os costumes estavam refinando-se, essas histórias serviam como "civilizadoras" dos homens. A "selvageria" começava a dar lugar à "civilidade".

        A conquista da mulher começava a dar-se "honestamente", não através de raptos, por exemplo. O cortejamento passou a ser fundamental. Outro aspecto que ganhou importância foi o surgimento da esperança da união entre duas pessoas exclusivamente por amor.

        Anteriormente, os casamentos eram arranjados pelas famílias dos noivos ou apenas entre o noivo e o pai da noiva. O amor no casamento era uma raridade. Muitas vezes a noiva só conhecia seu noivo às vésperas do casamento. O que estava em jogo numa união matrimonial era, paradoxalmente, o "patrimônio", as riquezas, as sucessões. Tudo envolvia o poder, a riqueza (que era um sinônimo de poder).

        Assim, tornou-se necessária a criação de uma regra que civilizasse a sociedade. E essa regra foi o amor cortês que, como foi dito, envolvia todo um cortejamento para a conquista da mulher.

        O jogo do qual o jovem participa exalta suas qualidades: fidelidade, coragem, bravura etc e são essas qualidades que devem ser incorporadas pelos homens da época. Portanto, esse jogo tem como finalidade educar os homens. Aí que a dama tem sua finalidade principal: educar os homens, afinal os perigos são enfrentados por sua causa, sendo assim, ela é quem regula essa educação. Quem melhor serve, ganha o jogo. "O amor cortês ensinava a servir e servir era o dever do bom vassalo"(2).

        Portanto, numa análise mais profunda pode-se considerar o amor cortês como uma ferramenta para a consolidação da ordem moral, baseada na moderação e amizade. Mas, além disso e, principalmente, serviu para reforçar a ética vassálica, a qual era o alicerce da política na época. A obediência e servidão dos homens eram tidas nos romances como virtudes e, portanto, deveriam ser imitadas e se estes valores conseguissem ser incorporados à sociedade, a ordem estaria estabelecida; a relação entre senhor e vassalo seria reforçada.

        É inegável, a partir disso, que a mulher ganha uma maior importância nessa época, mas também é certo que seus "direitos" não se aproximaram dos "direitos" dos homens, pois estes também tiveram uma promoção. Assim, a distância continuou a mesma: as mulheres continuaram sendo submissas e desprezadas(3). Prova disso é que a mulher servia apenas como um chamariz para consolidar a relação de vassalagem com o jovem.

        Todo esse processo de educação dos jovens leva a questionamentos sobre a relação entre eles e os seus senhores. Essa vassalagem e fidelidade pode ter muito mais relação com o senhor do que com a própria dama. A dama apareceria muito mais como um meio do jovem destacar-se e demonstrar suas virtudes ao seu senhor. Como quem mais servisse ganharia o jogo, o senhor era altamente beneficiado, sendo servido, mesmo que indiretamente, pela disputa entre vários jovens.

 

        CONCLUSÃO

        Os romances que compreendem o amor cortês contêm belas histórias, admiradas desde os tempos de sua criação até hoje. Mas por trás dessas histórias, em grande parte fantasiosas, encontramos todo um plano de afirmação da ordem social. Esses romances tinham como alvo os homens, especificamente cavaleiros, que deveriam admirar, então, as atitudes dos personagens e, finalmente, imitá-las. A organização social medieval dependia profundamente de relações de suserania e vassalagem e era exatamente essa relação fiel que é mostrada nos romances.

        Analisando as obras pode-se verificar várias mudanças dos mais variados valores. Os homens (no sentido de humanidade) começam a refinar seus costumes, tornando-se mais "civilizados". A mulher especificamente, apesar de continuar submissa aos homens passou a ser mais valorizada, o que já mudava sua condição anterior.

        Finalmente, pode-se dizer que, mesmo os romances não retratando a realidade, conseguiram demonstrar como seria o comportamento ideal que, mesmo não sendo obedecido integralmente, tornou-se, com o tempo, uma regra social.

  

NOTAS

(1) No amor cortês, "jovem" não significa apenas ter pouca idade, mas também alguém com a educação ainda não concluída e principalmente como um homem não casado, sem esposa legítima.

(2) DUBY, G. Idade Média, idade dos homens. Do amor e outros ensaios. São Paulo, Companhia das Letras, 1989. "A propósito do amor chamado cortês." p. 64.

(3) Idem. p. 61.

 


 Texto 3

 A despeito da violência e da destruição, as Cruzadas ajudaram a moldar alguns dos aspectos mais positivos da Era da Fé. Muitas das histórias e lendas da tradição do amor cortês - bem como a peculiar concepção ocidental do amor romântico como uma infeliz felicidade sem esperança - nasceu das Cruzadas. Ambos foram inspirados pelo amor a objetos distantes: uma dama distante e uma terra distante. Eleanor de Aquitânia, a grande patronesse dos trovadores, foi ela mesma uma cruzada, acompanhando seu marido, Luís VII da França, na Segunda Cruzada, em 1146, e mantendo um affair com seu belo e jovem tio, Raymond, príncipe de Antióquia. Um dos protegidos de Eleanor foi Chrétien de Troyes, que espiritualizou o ideal das Cruzadas - mais que conquistar as cidades da Terra Santa, seus cavaleiros percorrem o mundo em busca

 


 

 

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