O Casamento e o Amor na Idade Média
Fonte: http://www.milenio.com.br/ingo/ideias/hist/casament.htm
Até hoje foram escritas muitas obras relativas ao
casamento na Idade Média. Mas atualmente um aspecto relativo ao casamento vem
ganhando importância: a existência ou não de um sentimento que une os cônjuges,
hoje conhecido como o amor. Os casamentos medievais envolviam algum sentimento
afetivo entre os cônjuges? Uma questão muito difícil de responder. Grande
parte das obras sobre casamento muitas vezes não dedicam duas páginas sequer
ao assunto e, se o fazem, tratam-no muito vagamente, não dando a devida importância,
referindo-se apenas às obras sobre o amor cortês que, como veremos adiante, não
representava fielmente a realidade, era apenas uma literatura.
Como escreveu James Casey:
"Este é um tema importante, mas que pode ser afastado simplesmente com o argumento de que é periférico com relação à "realidade" do casamento arranjado, ou de que é muito difícil de investigar cientificamente, dadas as suas ambigüidades."[1]
Realmente o casamento arranjado exerceu uma maior influência
nas sociedades da Idade Média, mas numa pesquisa não se pode deixar de lado a
realidade. Ignorar o amor no casamento seria fechar os olhos para uma minoria, a
qual não exerceu papel tão importante quanto a maioria (casamentos
arranjados), mas que fez parte do passado, portanto tem a sua história.
Ainda com James Casey:
"A conduta moral não é um ramo autônomo do comportamento humano, mas precisa ser associada ao contexto social, àquelas estruturas econômicas e políticas que modelam e limitam seu desenvolvimento."[2]
Portanto os fatos não acontecem por acaso. Estão
envolvidos no contexto de sua época e, assim, merecem importância desde o
maior até o menor para poder-se entender a sociedade do passado em aspectos
cada vez mais exatos.
Para entender melhor o amor no casamento existem vários temas específicos que,
se forem analisados, podem fornecer boas conclusões. A questão do dote, da
herança, as limitações e influência da Igreja, o relacionamento entre os cônjuges,
os raptos, a fidelidade, o incesto, as condições das núpcias são alguns dos
temas que ajudaram bastante na interpretação do amor medieval e a conseqüente
conclusão deste trabalho.
Há de se ressaltar que a bibliografia consultada baseia-se
em registros das classes mais altas. Mesmo assim não há abundância de
documentos. Os príncipes tinham pessoas que relatavam suas grandes realizações
e aí o amor entra poucas vezes. E essas poucas vezes são bastante deturpadas
pois se um desses escritores quisesse deturpar a imagem de um príncipe dizia
que este era dominado pela esposa, desvirilizado, destituído de sua necessária
preeminência e tudo isso devido à sua imaturidade. Caso os escritores fossem
favoráveis a um príncipe, este é retratado como alguém que sente grande afeição
pela esposa, sempre bela, sempre nobre e por ele deflorada e, quando esta morre,
o viúvo fica desolado.
Desse modo não é possível determinar até que ponto o amor existia, afinal
uma pessoa, apesar de ser alvo de críticas, na verdade poderia amar sua esposa
e vice-versa. Sendo assim esses textos têm um sentido "ideológico"
que deturpam toda a imagem de alguém - inclusive na vida afetiva, conseqüentemente
na vida pública - ou exaltam-na.[3]
SÉCULOS IX e X
Nos séculos IX e X as uniões matrimoniais eram
constantemente combinadas, sem o consentimento da mulher que, na maioria das
vezes era muito jovem. Sua pouca idade era um dos motivos da falta de importância
que os pais davam à sua opinião. Diziam que estavam conseguindo o melhor para
ela. Essa total falta de importância dada à opinião da mulher resultava
muitas vezes em raptos. Como o consentimento da mulher não era exigido, o
raptor garantia o casamento e ela deveria permanecer ligada a ele, o que era
bastante difícil pois os homens não davam importância à fidelidade. Isso
acontecia, talvez principalmente pelo fato de a mulher não poder exigir nada do
homem e de não haver uma conduta moral que proibisse tal ato.
Outras vezes o rapto serviu como um meio de fugir dos casamentos arranjados. A
jovem que tinha um casamento já marcado forçosamente, sem seu consentimento,
com um homem que sequer conhecia, simulava um rapto fugindo com seu homem
desejado e acabavam por casarem-se e, mais tarde, o fato às vezes chegava a ser
reconhecido pelas famílias. É inegável aí a existência do atractio, uma
atração entre o casal. A fuga de um casamento forjado era algo grave para as
famílias pois envolvia muitas riquezas, portanto deveria haver um forte motivo
para os fugitivos.
As etapas de um casamento normal, que não envolvia raptos, nos séculos IX e X
eram as seguintes:
Petitio - pedido
da noiva pelos pais do noivo
Desponsatio - o entendimento das famílias
sobre a ligação de seus filhos
Dotatio - entendimento sobre o dote
Traditio - entrega da jovem ao seu
noivo pelos pais
Publicae nuptiae - cerimônia do
casamento
Copula carnalis - união carnal
Essas etapas eram feitas entre os pais. O desponsatio pode
ser entendido como um noivado, mas sempre sem consentimento algum nessa época,
pois os filhos eram ainda crianças, com cerca de sete anos de idade, sem idade
para decisões. Os acertos sobre o dote eram feitos no dotatio e também ficava
estipulado que, após as crianças crescerem e atingirem a idade de tomar suas
próprias decisões, se o casamento não se realizasse por rebeldia de algum,
haveria uma espécie de multa paga pela família da pessoa que desistisse do
casamento. Isso constituía mais uma pressão sobre os futuros noivos para a
realização do casamento. Portanto, casamento era uma questão resolvida entre
os pais (homens, sem as mães). A entrega da jovem (traditio) acontecia anos após
as três primeiras etapas, quando as crianças já tivessem atingido a idade de
aproximadamente doze ou quatorze anos. Então a cerimônia era feita e após
isso realizava-se a união carnal. Havia também a possibilidade do casamento
ser arranjado entre o pai da noiva e um cavaleiro, que seria o futuro noivo.
Tudo isso era um obstáculo para o surgimento da caritas (caridade) no
casamento, principalmente pela ausência total da importância da opinião da
noiva.
Nessa época, a Igreja ainda não participava efetivamente dos casamentos.
Devido a essa falta de regulamentação eclesiástica, teólogos e pastores
carolíngios davam maior importância ao ato sexual, isto é, à última etapa
do casamento, a copula carnalis.
Hincmar, bispo de Reims dizia que "sem a cópula não existe
casamento". Mesmo considerando que a seqüência deveria ser respeitada,
essa importância dada à cópula acabava favorecendo os raptos pois bastava aos
raptores terem uma relação sexual com a mulher para consolidarem os laços
matrimoniais.
Pode-se perceber neste período da Idade Média a falta de importância do amor
no casamento. Sem uma instituição efetivamente participativa na vida social
das pessoas - como a Igreja será nos séculos seguintes - , ou sem uma regra
estabelecida, o casamento era feito de qualquer modo, apenas obedecendo à seqüência
do petitio à copula carnalis, caso não houvesse um rapto.
O mais importante aí era casar-se com alguém de mesmo nível social ou mais
alto para poder aumentar as riquezas das famílias e, conseqüentemente exercer
maior poder.
A EVOLUÇÃO DO AMOR
A Reforma Gregoriana (1050 - 1215) mudou rapidamente o
comportamento da Igreja frente a vários aspectos, inclusive os casamentos.
Aconteceram várias discussões para decidir as concepções que a Igreja teria
acerca de certos assuntos. Sobre o casamento houve, entre outros, o debate entre
os clérigos Pedro Lombardo e Graciano.
O primeiro defendia a idéia de que o casamento deveria ser um contrato, as
palavras ditas à frente de testemunhas na hora do casamento é que deviam unir
o casal. As promessas e palavras ditas antes do casamento não efetuavam a união
dos cônjuges.
O segundo, Graciano, dizia que a intenção é mais importante que as palavras,
portanto a união poderia realizar-se mesmo antes do casamento. A promessa de um
casamento e a relação sexual já equivaleriam ao matrimônio.
Finalmente, no Concílio de Latrão (1215) foi decidido que o casamento seria um
contrato público, idéia defendida por Pedro Lombardo. Porém a intenção era
vista como aspecto mais importante, como dizia Graciano. Um exemplo disso é que
os casamentos realizados secretamente passaram a ser considerados válidos,
apesar de ilegais, isto é, a intenção aí realizava o matrimônio, mesmo
sendo um meio ilegal.
Outra atitude tomada pela Igreja durante as reformas, relativa ao casamento, é
estabelecer-se como a única instituição a legislar e julgar sobre a matéria.
Assim, várias concepções laicas são extintas para dar lugar à concepção
eclesiástica. Uma dessas mudanças é a condição do casamento. No final do século
XI e no século XII o consentimento mútuo do casal passa a ser exigido pela
Igreja. "Teólogos, canônicos, moralistas, todos os pensadores dos anos
1100 - 1140, raramente unânimes no resto, concordaram pelo menos,
maioritariamente, neste ponto: o consentimento era absolutamente prioritário
quer aos ritos sagrados, quer à publicidade, até mesmo à cópula"[4].
Apesar disso a negação de um homem por parte da noiva poderia ser censurada
facilmente e, mesmo contra sua vontade, acabava casando-se, por ordem do pai.[5]
Um meio mais eficaz para a mulher escapar de um casamento arranjado era seguir a
vida religiosa. "Negavam [o casamento] por amor a Deus". Esse tipo de
negação do casamento era "motivo de louvor, pois desejava a
castidade"[6], algo de muita importância para a Igreja. Mas mesmo alegando
o amor a Deus, muitas dessas mulheres também acabavam se casando.
Portanto, quando os pais da noiva estavam convictos da realização do
casamento, não havia como escapar. Nem por vontade própria, dizendo que amava
outro, nem através da religião, alegando amor a Deus. Pode-se, assim, perceber
a permanência da falta de importância dada ao amor, seja entre cônjuges ou o
amor de uma mulher por Deus
Com ou sem consentimento dos noivos, o casamento envolvia tanto leigos como
eclesiásticos e ambos davam diferentes importâncias ao matrimônio. O modelo
leigo visava a herança, levava em conta os bens dos cônjuges para não cair na
pobreza futuramente. Relativo à herança observa-se o grande número de
casamentos entre primos. Isso visava a concentração das riquezas de uma mesma
família. Esse tipo de casamento exigia também, por parte das famílias, não
ter muitos filhos, pelo mesmo motivo: não dissipar a riqueza da família.
Quando houvesse mais de um filho, somente o primogênito tinha parte na herança,
enquanto que os demais eram incentivados ao celibato transformando-se em monges
ou cavaleiros.[7]
Porém a Igreja estabeleceu proibições ao casamento entre parentes, que ia a
graus extremamente distantes, o que dificultava ainda mais a escolha do cônjuge.
Após essa regra imposta pela Igreja pôde-se observar muitos casamentos
realizados logo nos primeiros graus de consangüinidade permitidos, o que revela
que o costume de casar parentes mais próximos possíveis não desapareceu e,
apesar disso tudo, não se sabe até onde essas proibições foram levadas a sério[8].
Contudo, pode-se perceber aí a dificuldade de acontecer um casamento
simplesmente por amor.
A Igreja tinha outra concepção para o casamento: reprimir
o mal. Era uma forma de controle da devassidão dos leigos. Ela condenava o
prazer nas relações sexuais e, portanto, considerava o casamento um mal menor,
afinal dentro dele aconteciam as relações, porém, ao menos, sem prazer,
apenas visando a procriação. Outra imposição da Igreja era a proibição das
relações sexuais nos dias sagrados. Para conseguir essa proibição a instituição
utilizava-se do medo das pessoas alegando que as crianças com anomalias eram
concebidas em tais dias: "os monstros, os estropiados, todas as crianças
doentias, sabe-se muito bem, foram concebidos na noite de domingo"[9].
De acordo com a Igreja, a alma e o corpo da mulher pertencem a Deus e a partir
do momento em que ela se casa, o marido toma posse apenas do corpo, podendo,
assim, fazer o que bem entender com ele. Já as mulheres não tomavam posse do
corpo do marido, só lhes devia obediência total, o debitum, mais
especificamente o dever de ter relações com seu marido. Apesar de contrariar a
Igreja - pois esta condenava as relações sexuais que não objetivavam a
reprodução - se a mulher recusasse o debitum ao marido, este teria um motivo
para praticar o adultério, o que seria ainda mais grave. "O amor do marido
por sua mulher se chama estima, o da mulher por seu marido se chama reverência"[10].
Nota-se aí um grande contraste nas relações entre marido e mulher. Um não
deveria sentir o mesmo que o outro. Assim como as tarefas diárias, os
sentimentos também eram divididos diferentemente entre homens e mulheres.
Além de tudo, as jovens recém-casadas saíam de casa com
pouca idade para viverem com um homem que sequer conheciam e muitas vezes tinham
que sujeitar-se às mais variadas violências e humilhações, eram repudiadas e
abandonadas. Isso acontecia devido à inexperiência e desconhecimento completo
das mulheres que não sabiam até que ponto deviam sujeitar-se aos maridos[11].
Os casos em que a mulher negava ter relações sexuais com o marido e este
respeitava a postura de sua esposa eram motivo de risadas. O homem que não
tinha relações com sua mulher nunca poderia ser considerado um senior.
O amor que deveria existir entre o casal, segundo a Igreja, era o amor ao próximo,
a caridade, sem o desejo carnal. No século XII São Jerônimo dizia que
"aquele que ama a sua mulher com um amor demasiado ardente é um adúltero"[12].
A união para satisfação do dever conjugal era considerada pecaminosa pois
visava apenas o carnal, o desejo. O ideal seria a união numa intenção
procriadora (superior), que multiplicaria os filhos de Deus.
Clérigos como Huguccio condenavam o prazer sentido até mesmo nas relações
que visavam a procriação. Relações sexuais inadequadas eram consideradas
antinaturais. Isto é, relações inadequadas eram aquelas feitas em posições
sexuais que não favorecem a chegada do esperma até o óvulo, como por exemplo
a mulher em posição vertical. A sodomia também era terminantemente proibida
pela Igreja.
O casamento, portanto, não deveria ser o lugar para o amor
carnal ou a paixão. Na realidade, casamento era uma instituição que visava a
estabilidade de uma sociedade, servindo apenas para a reprodução e união de
riquezas, assim, dando continuidade à estrutura. A partir do momento em que o
amor aparece no casamento, esses pilares (reprodução e união de riquezas)
passam a um segundo plano, ameaçando toda essa estrutura. Quando um casamento
acontece simplesmente por amor, não há mais interesse a priori em reprodução
ou união de riquezas.
Porém, segundo clérigos e monges, apesar das proibições da Igreja, a afeição,
a ternura, o amor e a felicidade entre os cônjuges não eram prejudicados.
Partiam do exemplo da Virgem Maria e José que, mesmo sem terem relações foram
felizes, apenas amando-se, cooperando-se e sendo fiéis um ao outro. O amor
verdadeiro, na opinião de monges e clérigos menos radicais, é aquele em que o
sexo está na posição de subordinado, não prioritário, pois esse é o amor
que aproxima-se da caridade, portanto, de Deus. O amor, a afeição, eram muito
mais uma conseqüência do casamento do que uma causa[13].
O século XII é marcado por uma grande mudança em vários
aspectos da Idade Média. O casamento e o amor não são excessões. Já pode-se
observar mudanças nas concepções sobre o amor no casamento com o monge
Bernardo de Clairvaux: "o amor não requer nenhum outro motivo, além de si
mesmo, e não busca frutos. Seu fruto é o gozo de si próprio"[14]. Nesse
mesmo período surgem as histórias do "amor cortês".
Essas histórias, ao mesmo tempo em que divulgam o amor carnal, material, também
reforçam a imagem do amor proibido, e que, portanto, não deveria existir no
casamento, considerado sagrado. "O amor cortês foi
antimatrimonial"[15]. A exemplo do "Romance de Tristão e
Isolda", o amor carnal existe, é mostrado durante quase todo o romance,
porém esse amor tem um preço. Nenhum dos dois amantes podem viver juntos sem
os perigos. Se querem livrar-se dos perigos devem separar-se e, a morte de ambos
não aconteceria ao final se não tivessem envolvido-se. O amor na literatura
"é algo de extraordinário poder, que termina por destruir as pessoas; não
representa um modelo para a conduta social"[16]. "Este amor repleto e
alegre, não será no elo institucional do casamento, sempre de acordo com
nossos autores, que podemos encontrá-lo, salvo raras exceções. Evidentemente,
o casamento impõe-se como uma instituição indispensável, e até feliz, mas não
é o local do amor...Os amores preenchidos, os amores triunfantes, nos romances
e nos contadores de histórias, são amores ilícitos, os da juventude e da
beleza."[17] Assim, apesar de toda a divulgação do amor, ele continuou
vivendo como "fora da lei".
De qualquer modo, o "amor cortês", na realidade, foi um meio de
educar os cavaleiros, civilizá-los, apenas um jogo. A mulher servia
simplesmente de "chamariz". O seu senhor utiliza-se dela para conduzir
o jogo, oferecendo-a como o prêmio ao vencedor. Adjetivos como a fidelidade ao
senhor são exaltados nessas histórias. Como um senhor muitas vezes tinha
muitas mulheres, este era extremamente favorecido devido ao grande número de
cavaleiros que ficavam às suas ordens. Assim, as histórias do "amor cortês"
tinham como objetivo principal estabelecer uma conduta moral aos cavaleiros
principalmente perante o senior.
Já na primeira parte do Roman de la Rose, escrito por
Guillaume de Lorris, o amor dentro do casamento começa a ter lugar. O amor começava
a ser uma condição boa para o casamento. Esposas infelizes, desprezadas começam
a procurar consolação fora de casa, com outros homens. O mundo ia tornando-se
mais liberal, mesmo que contra a vontade da Igreja. Adultérios, pecados entre cônjuges,
contracepções, parecem acontecer com maior freqüência. Isso mostra uma
exaltação dos sentimentos do indivíduo que para satisfazer-se corre atrás
dos seus objetivos, mesmo indo contra a Igreja ou contra o comportamento social
padrão.
Neste mesmo período a nobreza tem um enriquecimento e, assim, torna-se mais
liberal perante os filhos. O medo de dissipar as fortunas devido ao grande número
de filhos vai desaparecendo e as famílias começam a permitir o casamento dos
filhos que não quisessem seguir a carreira eclesiástica.
Os cavaleiros perdem a exclusividade no manejo das armas. Pessoas mais simples
aprendem a manejá-las, tornando-se mercenários e soldados que acabam sendo
contratados pelos príncipes. A única diferença do cavaleiro passa a ser a
capacidade de "praticar jogos do amor"[18].
Outra mudança importante no século XII é a "invenção" do casal,
onde deveria haver uma cooperação, a amizade, "uma harmoniosa associação
para gerir o negócio comum"[19], isto é, para gerir a casa, o espaço
privado em que os sentimentos ganhavam espaço. Assim começava a nascer um
sentimento entre os cônjuges. Tornava-se comum ver pessoas tristes pela morte
do seu companheiro. "Há uma aproximação no seio do casal"[20].
A seleção de um marido não deixou de levar em conta o dote, o meio social do
pretendente, a profissão, a qualidade de sua casa, a sua linhagem, mas a opinião
da futura esposa tornava-se crucial para a realização ou não do casamento.
FINAL DA IDADE MÉDIA
Já nos fins da Idade Média, aproximadamente no século
XV, na literatura, surgem casais que apesar de fazerem uso carnal do casamento,
seguiam as normas da vida cristã e respeitavam suas regras. Esse tipo de
atitude era aceitável, porém não era a ideal para a Igreja.
Apesar de algumas mudanças desde o século XII, e uma maior tolerância por
parte da Igreja, nos finais da Idade Média o amor carnal continuou sendo
condenado, visto como algo proibido, sobretudo dentro do casamento.
Essa concepção pode ser vista nas obras de Hieronymus Bosch (1450 - 1516).
Aparentemente um homem bastante religioso, portanto, certamente, um defensor da
visão eclesiástica. Suas obras foram feitas durante o fim do século XV e início
do XVI, um período que marca o fim da Idade Média. Na sua Távola dos Sete
Pecados Capitais e as Quatro Últimas Coisas (aproximadamente de 1490) a figura
que representa a luxúria merece destaque. Nela aparecem, "os dois casais
de amantes divertindo-se em uma tenda de rico brocado, entretidos em um jogo
amoroso formal como prelúdio à expressão completa de sua paixão. O pecado
mortal da luxúria, o pecado original pelo qual o homem foi essencialmente
condenado, traz consigo a incitação adicional de prazer e dor, sugeridas pelo
bobo e pelo palhaço. Outros símbolos são a lira, associada à música do
amor, e o vinho, que flui livremente, libertando os amantes das restrições"[21].
Outra obra é O Carro de Feno, formado por três painéis. O primeiro representa
o paraíso, o segundo a terra e o terceiro o inferno. No painel central
encontra-se o carro de feno com alguns personagens em cima. "Dois casais de
amantes ilustram o pecado sempre presente da luxúria. Ao seguirem a música, símbolo
de auto-indulgência, nesta vinheta idílica, suas almas são contestadas pelo
anjo em prece à esquerda e pela música sedutora do demônio à
direita"[22]. Por trás dos amantes que estão em primeiro plano, "um
segundo par de camponeses beija-se nos arbustos em um prelúdio bucólico ao ato
de amor"[23]. Além disso, o carro de feno em que os amantes estão vai em
direção ao terceiro painel, isto é, ao inferno.
Isso tudo mostra como a concepção do amor proibido permanecia forte nos finais
da Idade Média. Até mesmo na Época Moderna o amor continuou a ser encarado
como algo não muito bom e não chegou a ser tão importante para a realização
de um casamento[24], apesar do consentimento ganhar cada vez mais espaço até
tornar-se o principal passo para a união de um casal.
CONCLUSÃO
Através desse trabalho pode-se perceber que o amor,
inicialmente, não tinha praticamente nenhuma importância para a realização
de um casamento. Foi com a participação da Igreja que o amor teve a chance de
manifestar-se através do consentimento, apesar deste não ser fator
determinante para a realização ou não do casamento. Um tanto paradoxal esta
proposição, pois a Igreja, ao mesmo tempo que começou com a idéia de
consentimento, também proibiu o amor carnal no casamento. E, mesmo a Igreja
sendo talvez a maior influência do mundo medieval, nem todos seguiam seus
dogmas e foi, graças a isso, que o amor pôde aparecer mais e mais no decorrer
do tempo.
As manifestações artísticas do século XII também ajudaram na popularização
do amor carnal que, mesmo ainda não sendo retratado como algo bom, certamente
acontecia na vida real. Seria absurdo dizer que todas as proibições da Igreja
eram obedecidas. Como as leis atuais que são infringidas constantemente.
Apesar de uma maior escassez de informações sobre o amor no fim da Idade Média,
pode-se constatar através das artes que a sua concepção não sofrera tantas
modificações desde o século XII. E as poucas mudanças continuaram
acontecendo mas sem nenhuma ruptura. A Idade Moderna, com todo o glamour das
cortes continuou a banalizar o amor, passando a priorizar a imagem que o
casamento exerceria frente às pessoas.
NOTAS
[1] CASEY, James. A história da família. São Paulo : Ática, 1992. p. 107.
[2] Id. Ibid. p. 108.
[3] DUBY, Georges. Idade Média, idade dos homens : do amor e outros ensaios. São Paulo : Companhia das Letras, 1989. p. 29.
[4] BERNOS, Marcel; LÉCRIVAIN, Philippe; RONCIÈRE, Charles de La; GUYNON, Jean. O fruto proibido. Lisboa : Edições 70. p. 108.
[5] DUBY, Georges. Idade Média, idade dos homens : do amor e outros ensaios. São Paulo : Companhia das Letras, 1989. p. 31.
[6] Id. Ibid. p. 31.
[7] CASEY, James. A história da família. São Paulo : Ática, 1992. p. 95.
[8] DUBY, Georges; ARIÈS, Philippe. História da vida privada, 2 : da Europa feudal à Renascença. São Paulo : Companhia das Letras, 1990. p. 128.
[9] DUBY, Georges. Idade Média, idade dos homens : do amor e outros ensaios. São Paulo : Companhia das Letras, 1989. p. 18.
[10] Id. Ibid. p. 58.
[11] Id. Ibid. p. 32.
[12] BERNOS, Marcel; LÉCRIVAIN, Philippe; RONCIÈRE, Charles de La; GUYNON, Jean. O fruto proibido. Lisboa : Edições 70. p. 111.
[13] DUBY, Georges. Idade Média, idade dos homens : do amor e outros ensaios. São Paulo : Companhia das Letras, 1989. p. 37.
[14] CASEY, James. A história da família. São Paulo : Ática, 1992. p. 121.
[15] LE GOFF, Jaques. A civilização do Ocidente medieval vol. 2. p. 117.
[16] CASEY, James. A história da família. São Paulo : Ática, 1992. p. 129.
[17] BERNOS, Marcel; LÉCRIVAIN, Philippe; RONCIÈRE, Charles de La; GUYNON, Jean. O fruto proibido. Lisboa : Edições 70. p. 141.
[18] DUBY, Georges. Idade Média, idade dos homens : do amor e outros ensaios. São Paulo : Companhia das Letras, 1989. p. 80.
[19] DUBY, Georges; ARIÈS, Philippe. História da vida privada, 2 : da Europa feudal à Renascença. São Paulo : Companhia das Letras, 1990. p. 152.
[20] Id. Ibid. Inf.
[21] COPPLESTONE, Trewin. Vida e obra de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro : Ediouro, 1997. p. 15.
[22] Id. Ibid. p. 48.
[23] Id. Ibid. Inf.
[24] BERNOS, Marcel; LÉCRIVAIN, Philippe; RONCIÈRE, Charles de La; GUYNON, Jean. O fruto proibido. Lisboa : Edições 70. p. 172.
BIBLIOGRAFIA
BERNOS, Marcel; LÉCRIVAIN, Philippe; RONCIÈRE, Charles de La; GUYNON, Jean. O fruto proibido. Lisboa : Edições 70.
CASEY, James. A história da família. São Paulo : Ática, 1992.
COPPLESTONE, Trewin. Vida e obra de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro : Ediouro, 1997.
DUBY, Georges. Idade Média, idade dos homens : do amor e outros ensaios. São Paulo : Companhia das Letras, 1989.
DUBY, Georges; ARIÈS, Philippe. História da vida privada, 2 : da Europa feudal à Renascença. São Paulo : Companhia das Letras, 1990.
LE GOFF, Jaques. A civilização do Ocidente medieval vol. 2.
INTERNET
http://www.humanas.ufpr.br/grad/historia/prolicen/prolicen.htm
Matrimônio : Religiosidade e controle na Alta Idade Média, por Juliana M.
Moares
FIGURAS RELACIONADAS AO TEMA (obras de Hieronymus Bosch)